quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Documentação para a Autonomia

 Documentação para a Autonomia: 

Livro Apresenta a Luta e os Desafios do Povo Hupd'äh no Alto Rio Negro





Livro publicado originalmente em 2009 sob organização de Renato Athias, intitulado:"Ações Indigenistas e Experiências de Intervenção entre os Hupd'äh do Alto Rio Negro" consolida-se como um documento fundamental para compreender a complexa realidade dos povos do Noroeste Amazônico. O livro reúne projetos, relatórios executados pela Associação Saude sem Limites (SSL) em parceria com o NEPE/UFPE ampliando assim, os  estudos multidisciplinares que jogam luz sobre a trajetória dos Hupd'äh, tradicionalmente conhecidos como "indígenas da floresta" e pertencentes à família linguística Nadahupy.

Historicamente, os Hupd'äh mantêm relações complexas e frequentemente assimétricas com os povos Tukano, os "habitantes ribeirinhos". Tradicionalmente caçadores e coletores nômades, eles enfrentaram um processo de sedentarização induzido por missões religiosas. Essa transição forçou a mudança do interior da mata para grandes aldeias próximas aos rios principais, alterando drasticamente seu modo de vida e relação com o território.

A concentração populacional em aldeias sedentárias trouxe consequências severas. Especialistas alertam para a deterioração da saúde, com surtos de doenças transmissíveis como a tuberculose, que chegou a atingir níveis pandêmicos em certas áreas, e o tracoma, que causa cegueira. A desnutrição e a falta de saneamento básico completam o quadro preocupante.

O livro detalha ainda o sistema médico tradicional Hupd'äh, fundamentado no xamanismo e em conceitos como o hãwäg (alma) e as forças vitais ou negativas, conhecidas como b'atib'. As barreiras culturais dificultam a adesão à biomedicina ocidental, tornando essencial o diálogo entre os diferentes saberes.

Na área escolarização, a obra destaca a implementação de escolas específicas e bilíngues. O projeto logrou êxito na contratação de professores da própria etnia e na formalização da escrita na língua Hup, elevando a autoestima da comunidade. Uma proposta metodológica para o magistério indígena visa o fortalecimento político e a autonomia de povos como os Hupd'äh, Yuhup e Dâw.

A busca por alternativas econômicas é outro pilar do documento. Diagnósticos participativos sugerem caminhos sustentáveis para a segurança alimentar e geração de renda. Por meio da meliponicultura, utilizando abelhas nativas, além da criação de pequenos animais para complementar a segurança alimentar da comunidade. Também é valorizada a comercialização de itens tradicionais de artesanato, como o cesto aturá, que representa não apenas fonte de renda, mas também a preservação dos saberes culturais. No manejo ambiental, propõe-se a implementação de roças permanentes, visando maior sustentabilidade na produção agrícola, assim como o processamento de produtos típicos da região, como a banana passa e o colorau, potencializando o aproveitamento de recursos locais e fortalecendo a autonomia dos povos indígenas.

Avaliação e Impactos (2004-2007)
O antropólogo indígena Ivo Fernandes Fontoura assina uma análise crítica das intervenções realizadas pela Associação Saúde Sem Limites (SSL). O projeto piloto atendeu 619 pessoas em apenas seis comunidades, incluindo Taracuá-Igarapé e Nova Fundação. Embora tenham ocorrido avanços no controle de doenças e acompanhamento das gestantes, Ivo Fontoura aponta que as comunidades ainda sofrem com a falta crônica de medicamentos e a necessidade de infraestrutura básica, como caixas d’água para evitar contaminações por verminoses.

Recomendações Estratégicas
Para o futuro das ações na região, o documento propõe:
Na Educação: Integrar práticas de subsistência tradicionais ao currículo escolar e apoiar a construção física de novas escolas. Na Saúde: Intensificar a capacitação dos Agentes Indígenas de Saúde (AIS) em saberes técnicos e tradicionais, além de ampliar a equipe médica de campo. Na Economia: Oferecer oficinas de produção de alimentos com menor esforço físico e atuar como facilitador na venda de excedentes agrícolas.

Em suma, a obra não se limita ao diagnóstico, mas atua como um guia para intervenções que respeitem a dignidade e a cultura Hupd'äh, buscando reduzir a dependência de agentes externos e fortalecer a soberania indígena.

Autores do livro:
Danilo Paiva Ramos, Lirian Monteiro, Patrícia Torres, Ulrike Rapp de Sena, Ivo Fontoura e Renato Athias.

Acessar o livro, clique no link: https://bit.ly/exthupdah